MARIA ISABEL
A CONDESSA DE IGUASSÚ


A MARQUESA DE SANTOS

Domitila de Castro Canto e Melo, nasceu em São Paulo no dia 27 de dezembro de 1797. Filha de João de Castro Canto e Melo e Ecolástica Bonifácia de Toledo Ribas, casou-se aos 16 anos com o alferes Felício Luiz Pinto Coelho de Mendonça com quem teve três filhos, separando-se em 1824.
Residente do Rio de Janeiro, sede do Império, Domitila veio a ser uma das figuras mais contraditórias do Primeiro Reinado. Após conhecer D. Pedro I durante uma viagem que este fizera a São Paulo em 1822, iniciaram um romance que se manteria ao longo de sete anos.
Como uma de suas amantes preferidas, o Imperador levou-a para o palácio e a nomeou como dama-do-paço e camarista de sua esposa, D. Leopoldina. Desse relacionamento, nasceram quatro filhos: Isabel Maria Alcântara Brasileira, (1824); Pedro (1825/1826); Maria Isabel Alcântara Brasileira (1827/1828) e Maria Isabel Alcântara Brasileira (1830/1896).
Muitos historiadores acreditam que a morte da Imperatriz em 1826 foi atribuída ao desgosto causado pelo imperador ao reconhecer publicamente Isabel Maria como filha e nomear Domitila com os títulos de viscondessa e posteriormente, de marquesa de Santos.

MARIA ISABEL

Quarta e última filha de Pedro I com D. Domitila de Castro Canto e Melo, Maria Isabel Alcântara Brasileira, nasceu em São Paulo no dia 28 de fevereiro de 1830. Por não reconhecê-la legitimamente como filha, seu pai jamais lhe outorgou um título honorífico, ao contrário de sua irmã D. Isabel Maria de Alcântara Brasileira, nascida em 23 de maio de 1824, agraciada dois anos mais tarde com o título de duquesa de Goiás. Maria Isabel, porém, receberia o título de condessa de Iguassú, após casar-se com Pedro Caldeira Brant, filho do marques de Barbacena, detentor desse título.
Em meados de 1829, após ser “convidada” a abandonar a Corte em razão de D. Pedro I haver contraído “novas núpcias por procuração com uma princesa européia arranjada pelas habilidades diplomáticas de Barbacena”, Domitila amargava a dor de deixar seu palacete em São Cristóvão e partir para São Paulo. Sem outra alternativa, despediu-se dos últimos dias na convivência do Imperador, porém, levava no ventre o fruto do seu amor, mesmo sem ter o reconhecimento de sua paternidade.
Mais tarde, moça formada, Maria Isabel escreveria a uma amiga: “Eu nasci a 28 de fevereiro de 1830, com o selo de bastarda, tanto por parte de pai como de mãe. A culpa não foi dela e sim do meu pai, que não quis que ele me reconhecesse no batistério”. E conclui com amargura: “Eu nasci sofrendo”, registra Carlos Maul.


TESTAMENTO

Embora a tenha citado em seu testamento feito em Paris no dia 21 de janeiro de 1832, D. Pedro não a reconheceu como filha, mencionando apenas que “aquela menina que lhe falei e que nasceu na cidade de São Paulo no Império do Brasil... Desejo que essa menina seja educada na Europa para receber igual educação a que se esta dando a minha sobredita filha a duquesa de Goiás e que depois de educada, a mesma senhora D. Amélia Augusta Eugenia de Leuchtemberg, duquesa de Bragança, minha adorada esposa, a chame semelhantemente para o pé de si”.
Após a morte de D. Pedro, D. Amélia atendeu seu desejo, conforme demonstra mensagem enviada por ela “aos banqueiros Samuel Philips e Companhia, do Rio de Janeiro, para que eles se incumbissem de encaminhar Maria Isabel à Europa, onde lhe seria dado o ensino que é hábito então proporcionar à gente da sua linhagem”.
Acusando o recebimento do pedido, a mensagem foi respondida por D. Domitila, em carta datada de 15 de fevereiro de 1840, esta agradeceu os “bons ofícios” da duquesa de Bragança, mas preferiu ela mesma cuidar da filha que sofria de epilepsia, herança que trazia “como prova da paternidade que a natureza gritava no corpo daquela criança”. Justificando a longa viagem que teria que fazer com a saúde frágil da menina, Domitila esclareceu em carta, que havia voltado à Corte a conselho médico, para cuidar da educação da menina dizendo: “deixei-a num colégio que se acha em Botafogo e que me inculcaram como o melhor”. Nesse educandário, de propriedade da inglesa Miss Poter, Maria Isabel ficaria internada até a idade de 11 anos.

RETRATO DE UMA PERSONALIDADE

Como se percebe, o projeto que D. Pedro havia traçado para Maria Izabel de uma educação européia não saiu do papel. Em 11 de agosto de 1850, em comemoração a data de fundação dos cursos jurídicos no Brasil, a Academia de Direito de São Paulo, promoveu um baile realizado como de costume no palacete da Marquesa. Maria Isabel no brilho de seus vinte anos, foi a dona da noite. “Os cabelos em bucres, cobrindo-lhes os ombros, como no famoso retrato pintado por Grumholtz, que se encontra no museu Nacional de Belas Artes, os olhos azuis e maliciosos, o rosto ovalado, a boca fina e cortada, o colo descoberto e robusto, as mãos de dedos longos, o vestido com recamos caros, realçava-lhe a linha principesca. Eram para ela os olhares mais ávidos, a curiosidade cobiçosa dos rapazes, a consideração grave e sisuda dos velhos que murmuravam:
- É o retrato vivo da mãe!...”.

E assim crescia Maria Isabel, a filha bastarda de D. Pedro I com D. Domitila. Mais tarde, durante uma viagem do Rio de Janeiro a São Paulo em dezembro 1874, a bordo de um vapor, a mãe e o avô de Gastão Penalva conheceram Maria Isabel, então condessa de Iguassú, com 44 anos. Militar e escritor brasileiro (1887-1944), Gastão Penalva é autor de vários livros de história e poesia destacando-se “Claros e Sombras”, “Gente do Mar”, “A Viagem da Imperatriz” e outros.
Em carta a Carlos Maul, o próprio Gastão Penalva descreve o seguinte testemunho:
“Sobre a Iguassú, minha mãe viajou com ela do Rio para Santos a bordo do vapor “Paulista”. Ela era alta, forte, insinuante, com lindos olhos azuis. Extremamente simpática, procurava aproximar-se de todos os passageiros com sua palestra finamente irônica, pontilhada de meiguice.
Nessa viagem seguiu meu avô materno, o Dr. Joaquim José do Amaral, para São Paulo, onde ia exercer o cargo de chefe de polícia. Nasceu-lhe uma filha a bordo, que se chamou Ondina, entre São Sebastião e Santos. O fato preocupou naturalmente a todos os passageiros. Foi a condessa quem mais se interessou pela parturiente e pela menina que acabava de vir ao mundo em pleno oceano.
À noite sob um lindo luar tropical, a condessa no seu camarote, sentada no beliche, com o belo rosto na vigia aberta, cantava com voz belíssima que a todos extasiava.
Em conversa, nunca esquecia de referir-se à mãe, a marquesa de Santos, com o afeto mais enternecido. Chegada a Santos, subiu para São Paulo, onde continuaram as relações de amizade com os meus. Minha mãe não tinha nesse tempo oito anos de idade, e lembra-se da condessa como uma das figuras marcantes da sua infância”.
O depoimento de Gastão Penalva, embora longe de expressar o que seria a verdadeira personalidade de Maria Isabel, nos fornece alguns elementos para percebermos que apesar de afirmar ter nascida sofrendo, mostra seu relacionamento com a sociedade.

A MARQUESA EM SÃO PAULO

Segundo Pedro Calmon: “A marquesa costumava reunir em sua casa às vezes vários amigos. Recebia-os no salão e sentava-se numa cadeira de espaldar alto, espécie de trono, e daí conversava longamente, ouvia e contava as suas histórias. Diz-se que de uma feita ela saiu-se com essa observação profundamente irônica:
- São Paulo está cheio de mulheres bonitas, solteiras casadas e viúvas. Todas muito honestas. Mas a roda dos enjeitados não cessa de receber crianças... E a mãe de todos eles é sempre a senhora Marquesa de Santos... “Aceito com satisfação essa maternidade...”.
Esplendidos saraus promovidos por D. Domitila nos fins de semana, quebravam a rotina de sua casa em São Paulo, e lembravam os dias de fausto da Corte em seu palacete de São Cristóvão. A luminosidade dos salões surpreendiam a todos os que chegavam em liteiras reluzentes trazendo ricos proprietários de fazendas e senhores de engenhos. Os “cabriolets” e os “tilburis” faziam parte desse desfile pomposo, onde damas e cavalheiros acompanhados da criadagem, farfalhavam suas roupas e vaidades ao ritmo das valsas vienenses e leques de seda rendados.
Neste ambiente de esplendor, Pedro Caldeira Brant aproximou-se de Maria Isabel. O doce sorriso da menina moça encantou o já encanecido viúvo que se desmanchava em gentilezas ao fazer-lhe a corte, iniciando ali um discreto namoro.
Não passando despercebido aos olhos atentos de Domitila, a marquesa questionou a filha toda aquela intimidade. Mostrando-se contrária ao início daquele amor, fazia referência ao pai de seu pretendente, o marques de Barbacena como um de seus maiores inimigos a liderar o coro das críticas a sua pessoa, incitando o imperador para seu segundo casamento e censurando a vida promíscua a que estava entregue.

O CASAMENTO

O ressentimento da marquesa, porém cedeu aos caprichos da filha, afinal, ele trazia o título de conde de Iguassu. O casamento realizou-se no Rio de Janeiro, no dia 2 de setembro de 1848, com a marquesa e amigos presentes no ato religioso. Os dotes oferecidos à Maria Isabel por sua mãe, somavam uma pequena fortuna em jóias, apólices e mais oito contos de réis em moedas.
Retirando-se para Iguaçu onde o conde tinha sua propriedade com engenhos, portos e escravos denominada Brejo, Pedro Caldeira procurou cerca-la de toda atenção. Durou pouco, entretanto a lua de mel. Maria Isabel era “irascível, brigona e gênio tempestivo” estava frequentemente nervosa e por várias vezes ameaçara deixar o lar.
As despesas se avolumavam com os gastos constantes da condessa, que não acompanhavam a habilidade comercial do conde em repor o dinheiro. Apesar disso “nasceram quatro filhos”; Pedro de Alcântara, que viveu até 1868; Maria Isabel, que morreu sem descendência; Maria Teresa, que se casou com o inglês Charles Collins, e Isabel, que se casou com o Dr. Antônio Dias Pais Leme, diz Carlos Maul em “A Marquesa de Santos”.

VIDA MUNDANA

Freqüentadora assídua dos grandes recitais dos cantores líricos italianos no Teatro São Pedro, Maria Isabel era vista regularmente desembarcando dos carros que chegavam para os espetáculos. Participando do “ruge-ruge dos balões de seda e tafetás; o namoro a distancia entre frisas e camarotes ou deles para as cadeiras; exaltações dos partidários de seus artistas preferidos; versos e flores atirados ao palco”.
As oferendas a eles entregues alcançavam valores impressionantes. Em 1852, A. Stoltz, cantora lírica “que não percebia menos 28:000$000, quatro vezes o que ganhava um ministro, recebia em seu “benefício” uma coroa de ouro, brilhantes e esmeraldas que lhe foi presenteada pela viscondessa de Abrantes, um colar de pérolas no valor de 4.000$000 que lhe mandou a imperatriz, um broche de brilhantes de 1.000$000 que lhe deu a senhora Bregaro, e mais pulseiras,alfinetes, brincos...numa festa cuja renda em dinheiro subiu a mais de 16.000$000”.
Publicada na revista “Estudos Brasileiros” em 1952, Marques dos Santos descreve: “essa coroa oferecida pela sociedade fluminense era representada por 44 senhoras, entre as quais as viscondessas de Abrantes, de Monte Alegre, de Paraná, e a condessa de Iguassú”. Ao final de um espetáculo “cantando o dueto da Favorita, a senhora viscondessa de Abrantes, reclinando-se sobre o parapeito do seu camarote, estendeu os braços para a artista” lhe presenteando o mimo pousado sobre uma almofada. “As flores e as coroas cruzavam-se no ar antes de cair a seus pés”, diz Charles Expilly, visitante francês no Rio de Janeiro citado por Wanderley Pinto em “Salões e Damas do Segundo Reinado”.

A SEPARAÇÃO

Durante este período, começaram a surgir informações secretas à respeito do comportamento de Maria Isabel, diz Augusto Maurício em “O Que Ficou do Passado”. “As suspeitas acabrunhadoras por parte do marido, e daí a desconfiança que se converteu afinal em dolorosa realidade – o conde era enganado pela esposa”.
Em nome do amor, o conde tentou “regenerar a esposa, prometendo-lhe perdoar a falta prometida”, entretanto “os erros e a desonestidade da mulher se sucediam com freqüência, enodoando cada vez mais o brasão que pertencera ao pai do esposo – o marques de Barbacena, um dos mais respeitados e nobres fidalgos do Brasil”.
Com a intenção de divorciar-se, o conde procurou aconselhar-se com D. Pedro II. Este não só “aprovou a sua resolução, como louvou o passo que ia dar nesse sentido”. Convidada a comparecer ao palácio, Maria Isabel foi “repreendida pelo monarca e proibida de entrar no passo imperial”, finaliza Augusto Maurício.
“Foi uma mulher bonita e atrabiliária...pela sua fraqueza de espírito foi a mais mimada das filhas da marquesa. Domitila deu-lhe tudo o que pode” provando em somas elevadas, reveladas no inventário após sua morte: “Bens móveis e imóveis, animais, escravos, objetos de ouro, prata e pedras preciosas”, completa Carlos Maul.


OS CALDEIRA BRANT

Felisberto Caldeira Brant Pontes, primeiro visconde e marquês de Barbacena, nasceu no dia 19 de setembro de 1772 no arraial de São Sebastião, São João d’El Rei, Minas Gerais, era filho do coronel Gregório Caldeira Brant “Contratador de Diamantes” e de Ana Francisca de Oliveira Horta. Desse consórcio (do primeiro visconde; casou-se com quem? quando?) (calma bem! Vou verificar.) nasceram três filhos: Felisberto Caldeira Brant Pontes, segundo visconde de Barbacena. Anna Constança, viscondessa de Santo Amaro e Pedro Caldeira Brant, conde de Iguassú.
Sua filha Anna Constança, casou-se com José Carlos de Almeida Filho, marquês de Santo Amaro. Felisberto Caldeira Brant (1802-1906) casou-se com a alemã Augusta Isabel Kirckhoefer e Pedro Caldeira Brant (1814-1881) casou-se com Cecília Rosa de Araujo Vahya, Dama do Paço e filha dos condes de Sarapuí. Este, tendo enviuvado, contraiu segundas núpcias em 2 de setembro de 1848, com Maria Isabel Brasileira de Bragança, filha de D. Pedro I e da marquesa de Santos.
Ainda na Baixada Fluminense encontramos o nome de Ildefonso de Oliveira Caldeira Brant, visconde de Gericinó, irmão de Felisberto, (o pai), proprietário do engenho de Gericinó, próximo ao engenho São Matheus, (Nilópolis), morreu solteiro.
Mattoso Maia Forte destaca a descendência do marquês pelo lado materno de Fernão Dias Paes, pois sua mãe, Ana Francisca de Oliveira Horta, era bisneta do “Caçador de Esmeraldas”. Esta senhora enviuvando do pai do marquês, casou-se com Garcia Rodrigues Paes Leme, vindo assim o marquês de Barbacena a ser irmão pelo lado materno, dos marqueses de Quixeramobim de São João Marcos.

Felisberto Brant (pai) estudou em Lisboa no Colégio dos Nobres, matriculando-se na Academia Real de Marinha onde assumiu o posto de capitão de mar e guerra. Serviu em Angola prestando serviços de combate contra corsários que assolavam a costa angolense. Voltando ao Brasil em 1808 na viagem com D. João, fixou-se na Bahia sendo promovido a brigadeiro quando ali fundou o Arsenal de Guerra, recebendo em 1818 o posto de marechal de campo.
Retirou-se para o Rio de Janeiro em 1822 tomando assento como deputado à Assembléia Constituinte em 1823. “Dissolvida a Constituinte, partiu novamente para a Europa em 1824 investido no cargo de plenipotenciário do governo brasileiro para tratar do reconhecimento da independência e negociar um empréstimo de três milhões de libras” destinadas a atender “despesas urgentes”.
Em 1826, os deputados encarregados de examinar as contas do governo, descobriram que Caldeira Brant “a título de retribuição pelos serviços prestados, recebeu polpuda comissão de 2% do total do empréstimo”, cujo escândalo se alastrou por toda a Corte “sob a acusação de conduta antipatriótica”.
Em 1828 pediu reforma do serviço militar no posto de marechal do exército. No mesmo ano embarcou para a Europa com credencial de embaixador, para tratar do segundo casamento de D. Pedro I com D. Amélia de Leuchtemherg.
Como embaixador credenciado na Inglaterra, foi envolvido por outro rumoroso caso de empréstimo com a “Casa Rothschild, no valor de 400 mil libras. Operação negociada ainda mais misteriosa do que as do empréstimo de 1824 -1825. Dinheiro que nem chegou ao Brasil, posto que serviu para amortizar os encargos daquela primeira dívida.”

(ACRESCENTADO MAIS ESTE CAPÍTULO)

Sobre o “caso Barbacena”, Octavio Tarquinio de Sousa em sua magnífica coleção: “História dos Fundadores do Império do Brasil” no volume IV, resgata a honra do visconde dando voz ao acusado através da correspondência trocada com o imperador, desfazendo o peso de sua culpa, interpretadas de maneira estereotipada pela historiografia, tanto tradicional como contemporânea.
Encarregado de acompanhar D. Maria II à Europa, e tratar do segundo casamento de D. Pedro, Barbacena fez grandes despesas: aquisição de carruagens, baixelas, viagens, demonstrações de riqueza etc. “de tudo prestara contas Barbacena, e recebera dois alvarás de quitação do imperador, um de 1º de dezembro de 1829 e outro de 14 de abril de 1830”.
Insinuações vindas em cartas do velho continente destinadas ao imperador, colocavam em dúvida a honestidade do visconde, que além das contas, entregara os livros de escrituração, motivo de dúvidas das despesas. “Terá sido talvez em novas leituras desses livros que D. Pedro entrou a descrer na exação do marquês”
Segundo a contabilidade, o imperador era devedor do Tesouro e sua preocupação em ressarcir o Estado era ponto de honra. Desconfiado, D. Pedro decidiu refazer todas as contas “e examinar todos os comprovantes... e para isso passou a perseguir Barbacena com cartas e pedidos de informação”.
Miguel Calmon ocupava no Gabinete de José Clemente a pasta da Fazenda “e voltara ao governo por instâncias de Barbacena”, motivos também dos ataques de D. Pedro, a ponto de pedir sua demissão diante de evasivas referente aos gastos do seu protetor.
Sentindo-se ameaçado, Barbacena, segundo Octavio Tarquínio, escreveu a D. Pedro em 15 de dezembro de 1830, “a carta mais franca, altiva e profética que jamais terá recebido um rei”. Recordando seu passado de servidor probo e leal, o marques declara que “em semelhantes circunstâncias Senhor, necessário é salvar a minha vida, retirando-me para o engenho de Gericinó, onde estarei em guarda... mas não posso encetar a minha viagem sem suplicar a V.M.I. que pondere no abismo em que se lança... a catástrofe que praza a Deus não seja geral, aparecerá em poucos meses; talvez não chegue a seis”.
Suas previsões foram precisas: “ao cabo de três meses e vinte e três dias, realizava-se o vaticínio com abdicação do imperador”. Aliados na conspiração, os nomes de Francisco Gomes da Silva e José clemente Pereira eram citados na missiva como os culpados pelas intrigas, citando as mazelas com o dinheiro do Estado envolvendo de seu nome. (fim do novo capítulo)

Agraciado com os títulos de visconde e marques de Barbacena, das Ordens de: Pedro I; de Cristo; do Cruzeiro e da Rosa, além de “outras do estrangeiro”, faleceu no Rio de Janeiro em 13 de junho de 1841, sendo sepultado na igreja de São Francisco de Paula. Seus restos mortais foram transferidos mais tarde para um mausoléu de mármore no cemitério de São Francisco Xavier, por sua filha a viscondessa de Santo Amaro.

DESCENDENTES

O Sr.Gilmar Barros em carta a este cronista, relata que o título de primeira condessa de Iguassú para D. Cecília Rosa de Araújo Vahya, foi outorgado por sua Majestade Imperial no dia 2 de dezembro de 1840. Nesta mesma data seus pais receberam respectivamente os títulos de conde e condessa do Sarapuhy. Seu pai, Sr. Bento Antônio Vahya, era Guarda-roupa do Imperador. No Almanaque Laemmert de 1850, encontramos o nome desta condessa como sendo “fazendeira em Merity”.
“A família Caldeira Brant, mesmo sem origem nobre, enobreceu durante o primeiro e o segundo Impérios, por que prestou relevantes serviços nos Ministérios, Governos de províncias, Forças Armadas, Senado e principalmente no Corpo Diplomático do Império do Brasil” diz o Sr. Gilmar Barros. Entretanto, no Dicionário do Brasil Imperial, organizado por Ronaldo Vainfas, fomos encontrar referências de sua origem de nobres Flamengos.
A mais grave mácula na honra da família Caldeira Brant, ocorreu em 1830. Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira e Horta (pai) foi demitido da Pasta da Fazenda sob acusação de improbidade administrativa, ou seja corrupção.

ENGENHO DO BREJO

O ano de 1815 marcou a chegada da família Brant na região do Iguaçu, com a compra da fazenda do Brejo pelo Sr. Felisberto Caldeira Brant (pai), das mãos do padre Miguel Arcanjo Leitão. Com o seu falecimento em 1841, assumiu a propriedade seu filho Pedro Caldeira Brant, o conde de Iguassú. Segundo Maia Forte, aquele se recolheu a esta fazenda “quando incorreu no desagrado de D. Pedro I”.
Executou diversas obras em suas terras “como a canalização de um braço do rio Sarapuhí, com seis eclusas e a regularização de seu curso. Obteve a concessão que não se tornou efetiva, para construir uma linha férrea entre o Brejo e as margens do rio Guandu”, diz Mattoso Maia Forte. Nomeado por Carta Imperial, ocupou a presidência da província do Rio de Janeiro como seu oitavo presidente. Entretanto teve gestão efêmera: de 7 de junho a 9 de outubro de 1848, sem tempo para executar qualquer empreendimento que viesse marcar sua passagem como governo por esse estado
Ainda como proprietários e fazendeiros na Baixada Fluminense encontramos o nome de Ildefonso de Oliveira Caldeira Brant, visconde de Gericinó, “irmão de Felisberto”, (o primeiro), proprietário do engenho de Gericinó, ao lado do engenho São Matheus, (Nilópolis), morreu solteiro. Do casamento de Felisberto Caldeira Brand (filho), com a alemã Augusta Isabel Kirckhoefer nasceu Augusta Maria Caldeira Brant que mais tarde se casaria com José Pereira de Bulhões Carvalho.
Ao que parece os Bulhões Carvalho eram naturais ou descendentes de pais com bens de raiz na freguesia de Jacutinga, (Belford Roxo), pois fomos encontrar seus nomes entre os “juizes de Paz” nesta freguesia, registrado no Relatório da Província do Rio de Janeiro no ano de 1850, da mesma forma o encontramos na Freguesia da Vila de Iguassú, onde ocupavam o cargo de “substituto de Juiz Municipal de Orphãos e Delegado de Polícia”. A partir desta data, encontramos seu nome ou de seus ascendentes comerciando nessa região.
O Almanaque Laemmert registra que durante os anos de 1853, 1854, 1855 e 1856, Francisco Pereira Bulhões Carvalho ocupou o cargo de vereador na Câmara Municipal da Vila de Iguassú, sob a presidência de Francisco José Soares.
No “Relatório da Província” do ano de 1854 vemos o nome Francisco Pereira de Bulhões Carvalho como um dos “principais fazendeiros e lavradores de café e mandioca” e a referência à Bento Pereira de Bulhões Carvalho como “fazendeiro”, exercendo também as funções de “delegado” em Jacutinga.
Segundo o mesmo “Relatório” de 1853 na página 71, está registrado um porto no Brejo, em nome de “Carvalho Junior & Cia. ltda.”, acompanhado de um pequeno anúncio no qual descreve sua atividade. Seria este pertencente a linhagem da família Bulhões de Carvalho?
O anúncio diz: “PORTO DO BREJO: Recebem todos os gêneros do interior, compram e remetem por conta de seus donos para a Corte. Tem um completo sortimento de fazendas secas, ferragens e molhados que vendem pelo preço do Rio de Janeiro, Pastos excelentes para as tropas, e boas aguadas. Desembarque na Corte no trapiche do Cleto. Escritório na Corte na Rua de São Pedro n. 63, Carvalho e Rocha”.

CANAL DO BREJO

Com esse título o Relatório da Província publicou em 1849, um documento descrevendo a conclusão desse canal “desde o Calhamaço até o Rio Sarapuhy”, feito pelo “Exmo. Visconde de Barbacena, com a extensão de 4.500 braças”, projetando estende-lo em associação com os Srs. José Bernardes Brandão e José Gonçalves de Carvalho Junior “até os rios São Pedro e Santa Ana, também independente dos cofres públicos e sem outro favor do governo”.
A construção do canal cortava em três partes a Estrada Geral, via importante de passagem em direção à Corte, “obrigando-se a construir as pontes que forem necessárias, para o que solicitaram ultimamente da presidência, a expedição das convenientes ordens ao engenheiro chefe do Distrito”.
Aplaudindo “o bom resultado que seu empreendedor há colhido no canal que abriu no Brejo”, o governo relaciona os inúmeros benefícios obtidos com a obra, “que além de facilitar a exportação, tornou aproveitáveis terrenos que até então não passavam de alagadiços e insalubres”, conclui o Relatório.
----------------------------
Esses capítulos fazem parte do livro “Belford Roxo, uma História”.

3 comentários:

  1. MARIA ISABEL, última filha de Pedro I com D. Domitila de Castro Canto e Melo, de nome completo Maria Isabel Alcântara Brasileira, era epilética como o pai D.Pedro I. A Marquesa de Santos, banida da corte, sempre fazia alusão ao fato do pai não legitimar a filha, mas a doença de origem hereditária denunciar a paternidade. É interessante compreender que a PRIMEIRA Condessa do Iguassú faleceu bem jovem, no frescor dos 22 anos de idade, enquanto que a SEGUNDA condessa do Iguassu, a filha não legitimada de D.Pedro I, esposa em segunda núpcias de Pedro Caldeira Brant, faleceu com mais de 80 anos já no período republicano.
    É importante quando citarmos CONDESSA DO IGUASSÚ, fazermos alusão se o título nobiliárquico da personagem refere-se a PRIMEIRA Condessa do Iguassú ou a SEGUNDA Condessa do Iguassú. A SEGUNDA condessa recebeu o título nobiliárquico por cabeça do marido viuvo, e posteriormente esse casal acabou se separando. A título de curiosidade, quando a PRIMEIRA Condessa do Iguassú faleceu as autoridades que - por medidas sanitárias - haviam recrudescido a antiga proibição de sepultar pessoas no interior das igrejas, foram surpreendidas com um pedido do próprio Imperador D.Pedro II para que se abrisse exceção para a Dona Cecília Rosa (Primeira Condessa do Iguassú), de modo que permitissem que a PRIMEIRA Condessa do Iguassú fosse sepultada dentro da Igreja São Francisco de Paula, aquela que existe no Largo de São Francisco de Paula, no centro do Rio de Janeiro, a mesma Igreja secular onde foi sepultada a Rainha D. Maria I em 1816. A distração de não fazer uma adequada referencia sobre que Condessa é a citada personagem já derrubou do cavalo historiadores de prestigio, como, por exemplo, o celebrado Gerson Brasil, que no seu livro "História das Ruas do Rio de Janeiro", confundiu-se ao relatar o caso da intervenção de sua magestade e cita que a filha não legitimada de D.Pedro I com D.Domitila (Marquesa de Santos) havia falecido e o pai, o Imperador D.Pedro I teria intervido a favor desse sepultamento no interior da Igreja, quando na verdade, a filha de D.Pedro I e da Marquesa de Santos (única filha não legitimada e segunda Condessa do Iguassú) D.Maria Isabel, faleceu em 13 de setembro de 1893, já período republicano, quando os dois imperadores já haviam saído do Brasil e haviam falecido, assim, na verdade quando houve tal pedido foi favorecer o sepultamento do cadáver da PRIMEIRA Condessa do Iguassú D.Cecília Rosa de Araújo Vahya na Igreja, e não foi feito por D.Pedro I, e sim pelo filho dele D.Pedro II, porque quando Cecília foi à óbito, em 1842, o D.Pedro I já havia partido para Portugal para entronizar sua filha D.Maria II, portanto o nosso primeiro Imperador não estava no Brasil para interceder a favor de Cecília. Depois de ficar viúvo, o Primeiro e único Conde do Iguassú, Pedro Caldeira Brant, no dia 2 de setembro de 1848, em segundas núpcias desposou a "filha não legitimada" de D.Pedro I com a Marquesa de Santos, que se tornou a segunda Condessa do Iguassú devido a esse casamento. Sobre o fato de Cecília ser apresentada como fazendeira em Merity, é interessante nos darmos conta que as terras do Engenho do Brejo é dividida ao meio pelo Rio Sarapuí (o rio limita duas Freguesias), uma parte das terras fica onde atualmente é a Fábrica da Bayer do Brasil, portanto está situada na antiga jurisdição da antiga Freguesia de Santo Antônio da Aldeia dos Jacutingas (atual Município de Belford Roxo) e a outra parte das terras do mesmo Engenho está inclusa na jurisdição da também antiga Freguesia de São João do Merity (atual Coelho da Rocha). Sobre o Conde do SARAPUHY, Bento Antonio Vahia (pai da PRIMEIRA Condessa do Iguassú), esse Faleceu em 1 de Desembro de 1843, 16 meses após a filha Cecília falecer. Cecília era filha única dele com D. Rita Clara de Araujo Vahia. Bento era Moço Fidalgo da Casa Imperial, Guarda Roupa de Sua Magestade o Imperador e Grande do Imperio. CREAÇÃO DO TITULO: Conde por decreto de 2 de Desembro de 1840.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa sou de Coelho da Rocha e fiquei encantada com essa historia ....enriquecedor

      Excluir
    2. Nossa sou de Coelho da Rocha e fiquei encantada com essa historia ....enriquecedor

      Excluir